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A águia e a nuvem


Regressemos alguns períodos no tempo para narrar essa história; não é de importância sua antiguidade ou atualidade, pois o foco, de fato, é que tudo aconteceu. Toda história acontece, seja na imaginação ou na realidade, no delírio ou na consciência, nas maiores ou nas menores pessoas, nos mais dotados ou nos mais destruídos lugares. E essa aconteceu onde deveria acontecer. 

Pode-se dizer que tudo se iniciou em asas, asas que compõe uma de nossas personagens. Asas esperançosas, asas traiçoeiras, asas majestosas. Asas de uma grandiosa águia; de uma sonhadora águia; de uma única águia. Águia essa que, como todas as outras, dominava os céus com todo o seu esplendor e beleza, emitindo silvos melancólicos e vivendo seu ciclo de predadora.

Ela não tinha nada de especial ou diferente, como a maioria dos protagonistas. Era uma ave comum desde o seu nascimento. O que muda as histórias, porém, não são inteiramente seus personagens, e sim seus atos, ligados, inevitavelmente, às suas consequências. É assustador o quanto uma simples atitude pode estender o fio de uma existência.

Era, provavelmente, mais um dia normal para a maioria dos habitantes do planeta, tanto os que dominavam o céu como os que dominavam a terra. Em algum lugar, água evaporava, deixando o céu repleto de grandes tufos brancos, aqueles que chamamos de nuvens. Uma grande tempestade chegava. Humanos começavam a andar com seus guarda-chuvas e capas ao pressentir a proximidade da chuva. Alguns animais desenvolveram sua própria proteção, enquanto alguns, como a águia, apenas continuavam a voar, com toda a sua liberdade incontestável, adquirida desde sempre.

E foi aí que, no meio do seu voô, sem mais nem menos, ela se apaixonou. Gostaria de dizer que foi por uma de sua espécie, ou por qualquer outra coisa inofensiva, mas a minha função é narrar fatos verídicos. Por mais absurda que possa parecer, garanto com absoluta convicção sua paixão: nada mais e nada menos do que um dos tufos brancos que invadiram o céu. 

Uma nuvem. 

Dentre todas as outras, apenas uma realmente lhe chamou a atenção; a que tinha uma forma abstrata, mas, ao mesmo tempo, que lembrava algo, alguma coisa; que a fez sentir algo  forte, incrivelmente forte, como um reconhecimento de majestade e beleza; foi como se tivesse, finalmente, descoberto algo que fosse igual a ela, ao mesmo tempo que era tão diferente.

Dias passaram. A nuvem foi caminhando pelo céu, sempre com a águia seguindo-a. As outras aves estranhavam seu comportamento, mas nada comentavam. Ninguém sabia o motivo dela deslocar-se sempre atrás de algo que não conseguiam descobrir o que era. Observavam-na percorrer qualquer coisa que lhes parecia invisível. 

Foram dias dessa mesma maneira; a águia já não comia nem dormia muito. A paixão que nutria só era transmitida à imensidão branca em formato de silvos melancólicos. Ela não queria que a nuvem reagisse (mesmo que quisesse, ela não poderia reagir). Bastava apenas olhá-la. Era tudo que precisava. 

Inevitavelmente, suas asas ficaram fracas e cansadas. 

Em determinado momento de seu descanso, avistou uma cobra. Resolveu abatê-la, porém, com a sua força precariamente reduzida, acabou por não obter tanta vantagem na caça. O animal lutava ardentemente embaixo das garras da ave.

— Não faça isso! — suplicou-lhe a serpente, esperando caridade.

A águia analisou-a.

— Diga-me algo que quer e eu realizarei — reforçou a cobra.

Alguns instantes de reflexão.

— Quero tocar uma nuvem. 

A serpente assustou-se:

— Por quê?

— Porque me apaixonei.

"Tola", pensou, não conhecendo o amor. Mas, vendo ali uma chance de escapar, disse:

— Há uma maneira.

— Não confio em você.

— Dou minha palavra — mentiu.

A ave hesitou, intimamente desequilibrada. Contrariou os instintos e deixou a serpente escapar de suas enormes garras. Contudo, antes que pudesse reagir, a cobra cravou seus dentes na águia, que emitiu um longo e cortante som da mais pura dor, e fugiu.

O veneno espalhava-se rapidamente.

Desesperada, pensava em sua amada nuvem. Queria tanto poder tocá-la pela primeira vez. Seria o mundo tão cruel? Decidiu que não. Com muita determinação, bateu as asas e começou a voar em direção ao grande tufo branco no céu. 

O vento estava furioso aquele dia. Impiedoso, dificultava o percurso da águia, fazendo com que ela vacilasse. A dor que lhe percorria era sufocante. Logo estaria paralisada. Mas não desistiria até que pudesse, finalmente, tocar a nuvem. Porque a amava. 

Sim, a amava. 

Apesar disso, foi difícil; o destino gosta de testes e os fatos não são alterados com frequência. Nos seus últimos minutos, a águia precisava combater o impossível. Seu corpo não obedecia mais às suas ordens. Estava ficando pesada. Era inevitável. Inadiável. Mas ela queria apenas uma última chance, uma única chance.

Um trovão ecoou no céu, seguido de relâmpagos. 

A águia estava muito próxima da nuvem. 

Nos seus últimos instantes, pensou que poderia tocá-la.

No entanto, a sua amada começou a se desfazer em formato de chuva. Pesadas gotas de água começaram a cair, uma a uma, simultaneamente. Logo depois, em harmonia e perfeita sincronia. Atingiam a águia impiedosamente, que assistia a tudo aquilo atônita. A nuvem estava... Acabando? Estava chegando ao fim de sua vida, também?

Sentindo as gotas prejudicarem as suas asas, e já não podendo resistir mais, a águia não lutou. Despencou sem resistência alguma. Em seus últimos circuitos de consciência, pensou que era feliz por morrer em contato com a sua amada. No fim, a águia não precisou tocá-la; a própria nuvem tocou-a. E isso lhe deixava em paz. 

Atingiu o solo já morta. 

As gotas continuaram a cair em cima dela, como se fosse uma despedida. Ou um encontro. Logo, ocorreria mais um processo de evaporação. A nuvem nunca morreria. E, dessa vez, poderia levar os vestígios da alma da águia consigo. Finalmente estariam juntos.  

Regressamos alguns períodos do tempo para narrar essa história; não é de importância sua antiguidade ou atualidade, pois o foco, de fato, é que tudo aconteceu. Toda história acontece, seja na imaginação ou na realidade, no delírio ou na consciência, nas maiores ou nas menores pessoas, nos mais dotados ou nos mais destruídos lugares. 

E essa aconteceu onde deveria acontecer. 


4 comentários:

  1. Adorei demais sua fanfic, tens muito talento, parabéns !
    Continuarei acompanhando seu blog.

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    1. Que honra. *-* Muito obrigada!
      Adoraria te ver mais por aqui. <3

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  2. e muito emocionante essa história, espero que você crie um livro. Porque eu serei o primeiro a compra

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    1. espero que um dia isso aconteça.
      obrigada pela leitura. <3

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