Para ser escritor, é necessário sonhar. É necessário ir e voltar da fronteira final e não impedir sua mente de trabalhar e voar; deixá-la livre, liberta para criar asas e alçar voo, desimpedida. E nada de tentar colocar freio nessa mocinha! A não ser que ela, bem, extrapole os limites. Uma correçãozinha de vez em quando não mata ninguém, isso é. Mas eu lhe digo, digo bem: sonhe.
Para ser escritor, é necessário ser louco. É. Não louco, assim, para ir parar num manicômio, mas louco de imaginação. Louco para cruzar horizontes, para ir além do que a ciência conhece; louco para se arriscar, louco para sentir; louco para fazer o possível, o impossível. Para estabelecer limites e quebrá-los. Para sentir confiança em si mesmo, para experimentar a adrenalina, para buscar sua própria felicidade. E quem disse que falar com seus personagens é ser maluquinho de pedra? Não, não, isso é sentimento! É sentir a vida daquele que você criou. É convidá-lo para tomar um cafezinho e bater um papo; conhecer sua vida e indagar como e quando foi parar em seu pensamento.
Para ser escritor, é necessário ser curioso. Nenhum escritor do mundo vai ter a cura da fome na ponta da língua. Porque, assim, ser escritor não é ser o mais inteligente nem uma enciclopédia ambulante. Imagina! Nunca. Ser escritor é ser aquele cara curioso, que se pergunta por que o céu é azul, por que as nuvens são brancas, por que tem gente que usa tanta máscara no mundo, por que “separado” se escreve tudo junto e “tudo junto” se escreve separado... É perguntar, procurar conhecer o mundo, escrever sobre o mundo, sonhar o mundo, enlouquecer o mundo. Ser escritor é, acima de tudo, compreender tudo e não compreender nada, é ser o otimista e o pessimista, é indagar e nem sempre ter resposta. É ser humano.
Para ser escritor, é necessário sentir. Isso mesmo, sentir! Sentir a chuva caindo no corpo, sentir o sol banhar o rosto, sentir a frustração de não conseguir escrever o que quer, sentir uma felicidade boba, sentir preguiça e passar o dia na cama, sentir o peso de um dia de trabalho, sentir a gripe depois de — surpresa! — inventar de sair e sentir a chuva, sentir prazer, sentir euforia, sentir adrenalina, sentir vergonha, sentir fome, sentir frio, sentir rivalidade, sentir inferioridade, sentir superioridade, sentir, ufa!, cansaço… Tem que sentir, para quando for escrever, passar tudo o que já sentiu para o personagem. Por quê? Personagem sente tudo isso, personagem é gente, personagem é criação, personagem é o escritor.
Para ser escritor, é necessário enxergar. Enxergar beleza. Nos sons, nas cores, nos pequenos detalhes que a gente não repara. Ver que aquela cortina não é só uma cortina. Quer dizer, é uma cortina, mas bem que poderia ser um esconderijo para aquele casal apaixonado, né? Ou quem sabe um material de assassinato, uma prova de suicídio, um objeto de investigação! O vestido daquela assombração, o fantasma do passado. É! Ser escritor é ver coisa nos mínimos detalhes. É sempre andar de olhos e ouvidos abertos para reparar que o mundo esconde muito mais que o ser humano pode ver. É passar tudo isso para o papel e mostrar para o leitor que, olha, a cortina é o esconderijo daquele casal apaixonado. É ver o mar e transformar o mar em poesia do mar, poesia do mar em conto do mar, conto do mar em lenda do mar, lenda do mar em história do mar que virou o lar de uma sereia que não sabia nadar. Um mar dá mais tantas e tantas voltas na caneta do escritor do que em suas caminhadas pelos quatro cantos do mundo. Isso tudo porque esse bendito escritor consegue enxergar tudo aquilo que muitas vezes passa despercebido pra muita gente.
Para ser escritor, é necessário ser o que todo mundo tem medo de ser. É necessário sonhar o que todo mundo tem medo de sonhar, imaginar o que todo mundo tem medo de imaginar, derrubar barreiras que todo mundo tem medo de derrubar. É ser comum, mas ser diferente. Mais que isso: para ser escritor, a gente tem que passar por tudo que todo mundo passa. É ser todo mundo, mas é ser a gente. Ser escritor é muito mais que seguir todos os parágrafos acima na linha retinha. Ser escritor é saber que tem muita gente que conta com você. Conta com esse seu conto do mar e esse seu talento de transmitir o mundo em letras, palavras e páginas.
Porque é assim: ser escritor é ser um livro de muitas páginas, também. Porque é assim, assim mesmo: ser escritor é ser somente e somente aquilo que você quer ser. É ser aquilo que você é, e, ainda assim, conseguir ser aquilo que muita gente se inspira. É ter várias vidas e ter uma vida. É ser várias pessoas e ser uma pessoa. É viajar para muitos lugares e não viajar para nenhum lugar.
Ser escritor é ainda mais do que aquela definição fajuta do dicionário. Ser escritor é… Ué, ser escritor é ser escritor! E para ser escritor… Bem: é necessário simplesmente ser.
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R E N A N M A G A L H Ã E S
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